terça-feira, 16 de dezembro de 2014

FioCruz descobre superbactéria em rio que deságua na Praia do Flamengo


RIO - Bactérias resistentes a antibióticos, também chamadas de superbactérias, foram encontradas nas águas do Rio Carioca, que atravessa diferentes bairros da Zona Sul do Rio e deságua na Praia do Flamengo, na Baía de Guanabara. Mais facilmente encontradas em hospitais, as bactérias produtoras da enzima KPC foram identificadas por cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/FioCruz) em amostras de água coletadas em três pontos: Largo do Boticário, no Cosme Velho; Aterro do Flamengo, antes da estação de tratamento do Rio Carioca; e na foz do rio, no ponto onde ele encontra Praia do Flamengo.

A pesquisadora Ana Paula D'Alincourt Carvalho Assef, do Laboratório de Pesquisa em Infecção Hospitalar do IOC, afirma que é preciso ter atenção para a possibilidade de disseminação deste tipo de resistência aos antibióticos, o que pode dificultar o combate a infecções. A Praia do Flamengo é muito frequentada por banhistas, mas ela garante que não houve registro de contaminação entre pessoas que frequentam os locais onde a bactéria foi encontrada. "Ainda assim, os resultados da pesquisa foram enviados para as autoridades competentes, que podem avaliar as medidas a serem adotadas”, declara a microbiologista, no informe da FioCruz.

A descoberta teve repercussão mundial. No site da "BBC" de Londres, uma chamada destaca "Superbactéria encontrada em águas olímpicas no Rio", fazendo referência à área da Marina da Glória, que fica perto da Praia do Flamengo e vai receber as competições de vela das Olimpíadas de 2016. Já o título da matéria no site do "Daily Mail" diz "Superbactéria resistente a antibióticos é encontrada em baía do Rio onde as provas de vela e windsurf das Olimpíadas serão disputadas, promovendo novas preocupações sobre o sistema de esgoto da cidade".

As bactérias encontradas produzem enzima chamada KPC, característica que as torna resistentes aos principais antibióticos utilizados contra estas infecções. As doenças causadas por estes microorganismos são iguais àquelas provocadas por bactérias comuns, mas o tratamento exige antibióticos mais potentes. Como as superbactérias são resistentes a medicamentos mais modernos, os médicos precisam recorrer a drogas que estavam em desuso por serem tóxicas para o organismo – como a polimixina.

A pesquisadora Ana Paula explica que “mergulhar num rio onde há bactérias produtoras de KPC é como mergulhar em qualquer rio poluído. Existe o risco de contrair doenças, que não são mais graves do que as causadas por outros microorganismos. O problema é que, no caso de uma eventual infecção, é possível que o tratamento exija uma abordagem de internação hospitalar”.

Além disso, a principal ameaça é a disseminação dessa resistência, já que as bactérias são capazes de transmitir genes umas para as outras. “Os genes que estão associados à resistência aos antibióticos podem estar localizados em elementos móveis dentro das bactérias, que podem ser multiplicados e transferidos para outros micro-organismos. Fazendo uma analogia, é como se as bactérias trocassem figurinhas de mecanismos de resistência. Assim, a água pode se tornar uma biblioteca destes genes”, explica Carlos Felipe Machado de Araujo, aluno do programa de mestrado em Biologia Celular e Molecular do IOC e também autor da pesquisa.

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